Bom, hoje na UFRJ, mais precisamente no Centro de Tecnologia (ou CT) houve uma homenagem ao Prof. Octavio Augusto Ceva Antunes, ele era um dos passageiros do vôo AF 447, da Air France, desaparecido depois de decolar no Rio, rumo a Paris. Amigos, alunos e parentes prestavam suas homenagens. Todos ali conheciam e admiravam o Octávio. Eu só ouvi seu nome após seu falecimento e, por isso, algumas pessoas podem estranhar essa minha homenagem a ele, mas até o final desse texto vocês entenderão.
Gostaria de começar ligando certos pontos. Como as coisas começaram...
Segunda-feira, 01 de Junho de 2009, Ao ligar a TV assisto a uma repórter da Globo anunciar a queda do vôo 447 da Air france. Até então não sabia o real impacto daquela notícia na minha vida. Só pude pensar na situação dos parentes dos passageiros daquele vôo. Ainda assim, a notícia parecia nada ter a ver comigo.
Ao chegar na faculdade, minha professora de química farmacêutica com os olhos vermelhos conta a todos na sala que um professor seu estava no tal vôo. “Que estranho” – pensei. “Uma aluna chorar a perda de um antigo professor, deve ter sido, no mínimo, um excelente professor”.
Dias depois vagando pelo site do Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro (CRF-RJ) me deparo com a notícia na página principal do site: “Avisos importantes; Nota de pesar”. Então li o texto:
“[...] O professor Octávio Augusto Ceva Antunes, do Instituto de Química da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), também estava no vôo AF 447, da Air France, desaparecido na noite de domingo depois de decolar no Rio, rumo a Paris. Ele viajava para participar de uma palestra.
Professor titular da cadeira de química da UFRJ desde 2005, Antunes é farmacêutico pela UFF (Universidade Federal Fluminense), possui mestrado e doutorado, além de pós-doutorado em Organometálicos na Universidade de Paris VI.
Antunes tem mais de 200 artigos publicados em periódicos especializados, cinco capítulos de livros e um livro. Também possui 23 pedidos de patentes. Foi consultor da Organização Mundial de Saúde (Genebra) em produção de fármacos anti-HIV e professor visitante na Universidade Louis Pasteur de Estrasburgo (junho de 2008). [...]”
Deparando-me com aquele resumo curricular pensei “Quando crescer, quero ser igual a esse cara”. E logo questionei-me se era aquele o Professor qual minha professora se referia. Cheguei na faculdade contando a alguns amigos sobre aquele pequeno currículo que havia lido e como aquela parecia ser pra mim um grande perda pro mundo científico.
Entristeci-me por não ter conhecido aquela mente, mas esse era o único lado de Octávio que eu conhecia, o currículo.
Tempos depois fui à UFRJ procurar por um estágio de iniciação científica, lá conheci a coordenadora de Pós-graduação do curso de farmácia, Drª. Gisela Dellamora. Gisela é uma daquelas pessoas que te fazem sentir-se em casa. Em algumas de nossas poucas conversas notei que toda vez que ela citava o nome de Octávio sua voz ficava trêmula como quem fosse chorar, ela parava e respirava fundo. “Nossa! Que efeito teve esse senhor nessas pessoas” – pensei.
Dias depois Gisela me apresenta ao Prof. Rodrigo Souza. Rodrigo é um jovem doutor que assumiu os projetos de Octávio. Iniciando no estágio, eu trabalharia em um desses projetos, inibidores da HIV - protease. É difícil dizer o quão feliz eu estava. E, apesar da constante mudança do projeto, está sendo muito confortável trabalhar com o Rodrigo e a galera do laboratório.
E lá estava eu hoje, nessa homenagem. Até então Octávio era pra mim um exemplo de profissional. Pra minha surpresa, através daquelas palavras de pesar dos que o homenageavam, Eu descobri que ele é um exemplo de ser humano.
Às vezes as pessoas dizem: “Depois de morto, todo mundo é santo”. Mas a história de Octávio mostrou o tipo de ser humano que ele era. Suas histórias engraçadas, suas expressões, seus palavrões, defeitos e qualidades. Discursos que fizeram até a mim, um completo estranho, encher os olhos de lágrimas.
Octávio largara um emprego em uma multinacional pra seguir um sonho de ser professor, mesmo ganhando um salário 5x menor. Prestou concurso e começou a lecionar no Instituto de química da UFRJ. Ali ele orientou dezenas de alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado... Diz-se que ele obrigava aos alunos a ler algumas grandes obras literárias que nada tinham a ver com química.
Eu admirava demais ao Octávio currículo, até conhecer o Octávio ser humano.
Alguém tão admirado por amigos, parentes, colegas de trabalho é, no mínimo, um exemplo. Octávio é a personificação de tudo que sonho um dia ser. Seu trabalho inspirou mesmo a mim, alguém que ele nunca conheceu. Apesar de eu nunca ter estado em uma mesma sala que ele, não posso deixar de pensar nele como um professor que me ensinou um sonho. E, evoluindo, é esse tipo de pessoa que quero me tornar.
Pra encerrar, deixo a frase de encerramento do discurso de um de seus melhores amigos.
“Pessoas como Octávio tornam totalmente inválida a premissa de que ninguém é insubstituível”
Evoluindo...
Anexo: Currículo do Octávio: [link]http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4781815H5[/link]
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